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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Minha, eternamente!


(...)

Terra!
Minha, eternamente!
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios, baloiçando
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...

Alda Lara

quinta-feira, 9 de abril de 2009

...fala baixo


Ela vinha toda mar
deixava em minha praia
seus vestidos seus perfumes
as algas dos seus pés.

Foi quando a criança
que mora em mim
ainda saía a passear
pelas ruas então estradas
todas cheias de brinquedos
das minhas vãs certezas.

Hoje tudo aquilo já passou
dizem até que ela morreu
vejam só tanta volta
o mundo deu
Agora o amor
só de velhas fantasias
se traja.

Dessas coisas pequenas
que mais parecem contos de fadas
fala baixo coração
Não vá forte tua voz
acordar
o que há muito adormeceu.

sábado, 7 de março de 2009

Apelo


Na outra margem do rio,
(e eu vejo-a!)
há campos verdes de esperança,
abandonadas ao calor de um sol eterno...
Na outra margem do rio,
onde não chega o inverno,
há campos ondulantes de searas maduras,
para os pobres matarem nelas
todas as fomes do mundo...
Na outra margem,
tudo se começa de novo
e não há dias passados
que amargurem os desgraçados...
Não há dinheiro,
e os homens dão-se as mãos
que pelo dia inteiro
ouvi as canções que os seus lábios entoaram...

………

E entre mim, e a outra margem,
esta terrível viagem.
Este rio caudaloso, imundo,
sujo de todos os calhaus,
que nele vomitou o mundo...
Entre mim e a outra margem,
o rio...

Ah! barqueiro
porque tardas?...
Não vês como faz frio?

Espero mas desfaleço...
Não tardes mais barqueiro
não tardes!...
Que é tão longe ainda
a outra margem do rio...

Alda Lara

quarta-feira, 4 de março de 2009

Poemas que eu escrevi na areia


I

Meu bergantim, onde vens,
que te não posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir, rumo ao mar...

Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
de não me chegar ao fim.

Meus braços estão torcidos.
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
e esperam, presos ao Céu...

Que haverá p'ra além da noite?
p'ra além da noite de breu?

Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver,
e sacudir e beijar,
sem ondas mansas, cobrindo-o...

Quem dera viesses já...
que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
sem ver o que há para além
deste grande, imenso céu
e desta noite de breu...

Não quero morrer serena
em cada hora que passa
sem conseguir avistar-te...
Com meu olhar enxergando
apenas a noite escura,
e as aves negras, voando...

II

Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
que numa praia distante,
meu bergantim se afundou...

Meu bergantim foi-se ao mar!
levava beijos nas velas,
e nas arcas, ilusões,
que só a mim me ofereci...

Levava à popa, esculpido,
o perfil, leve e discreto,
daqueles que um dia perdi.

Levava mastros pintados,
bandeiras de todo o mundo,
e soldadinhos de chumbo
na coberta, perfilados.

Foi-se ao mar meu bergantim,
Foi-se ao mar... nunca voltou!

.........................

E por sete luas cheias
No areal se chorou...

Alda Lara

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Trilogia do Outono


III

E mais, ainda um pouco mais somente...
Ao alto da montanha , outra montanha.
Se é chama a febre que a minha alma ganha,
sempre há-de consumir-se inteiramente.

Ficar onde a incerteza não consente,
é ter por outra, a paz que me acompanha.
Pode ser garra o quanto é de dor tamanha,
mas há-de rasgar inutilmente.

Deixai no alto céu, o alto espaço!
Deixai voar a asa do meu braço,
correr os mundos todos que ideou...

E quem escrever loucura, há-de ler sede!
Também o pensamento não se mede,
Também o Cristo é Deus, e não ficou.

Alda Lara

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Bruma


Perdidos meus olhos…
incerto meu passo…
Vago o gesto,no espaço!...

Mesmo assim
o meu andar se não detém.

Além
continuam a esperar por mim,
os mundos que uma vez encontrados
ninguém mais descobriu…

Quem me viu?...

E eu vou só…
perdidos meus olhos,
incerto meu passo,
vago o gesto no espaço…
mas VOU-ME!...

Isso me basta!...


Alda Lara

domingo, 16 de novembro de 2008

Sonho


Oh! Volúpia de sonhar…
Volúpia de partir
para onde só há névoa e fumo,
sem bússolas a nortear!...
Volúpia de dormir indefinidamente
de levantar castelos inacessíveis
com escadas tecidas de cabelos!...
de moldar com raiva, e com prazer,
entre as mãos frágeis,
aquilo que não poderá ser!...
Oh! Volúpia de fechar os olhos,
e morrer um pouco…
Ainda se a vida passasse,
e não continuasse…
Sem se dar conta que eu sonho!...
Mas o meu sonho é a morte…
E a vida não pára mais…


Alda Lara

domingo, 28 de setembro de 2008

Trilogia do Outono


II

A fruta sazonada é fresca orgia
que corre à nossa boca em linfa escura.
Mulher! Ergue-te e olha! A toda a altura
a breve mão que te alcança o novo dia.

Descansa à luz do tempo a face esguia,
coberta de vigílias e amarguras.
É tua a sede desta terra madura,
Irmã de todo o medo e cobardia…

O preço das traições que te marcaram
e quantas dores ocultaste açoitaram,
hás-de bebê-lo sem tremer…Imundo,

o vinho deste mosto é sangue vida!
Podes brindar por ti, na hora erguida,
e estilhaçar a taça, aos pés do mundo!...


Alda Lara

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Trilogia do Outono

I

Vem meu Amor, trazer à adormecida
sombra informe de todos os cansaços,
esse calor fremente dos abraços
que fecundam a terra apetecida.

À nossa volta, em sol, rebenta a vida!
Lateja sob o oco dos meus passos,
e vai-se doida, em voos p´los espaços,
levar às flores a seiva prometida…

Ao longe, ou perto, o mundo será nosso!
Será conquista e força, esse destroço
de febre, a apodrecer sem mais impulsos…

E então Amor, verás como sou forte!
E como hei-de arrancar à nossa morte,
o filho do teu sonho, e dos meus pulsos!...

Alda Lara

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Estrelas Mortas


A menina cresceu...
Nunca mais usou laços no cabelo,
nem chapéus com fitas largas
a esvoaçar ao vento...
Nunca mais pôs bibes de riscado aos quadradinhos...
...E as borboletas,
perderam-se, esquecidas nos caminhos...

A menina cresceu...
O quarto de brinquedos fechou-se para sempre,
e dos castigos também se fechou...

Na boca de menina,
o tempo cavou um sorriso,
sempre igual...e sempre triste...

E as suas mãos , agora longas,
de unhas sangrentas,
nunca mais quiseram agarrar a lua,
nas noites belas...
...nunca mais..
De resto as noites fizeram-se mais escuras,
e menos belas...
Noites de bruma,
onde as estrelas se apagaram todas,
uma por uma...

E tudo, porque a menina cresceu...

Alda Lara
(1949)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Diário

…Quando as aves cessarem os seus cantos,
e todas as primaveras calarem os encantos
dos teus vinte anos…
…Quando as folhas das árvores tombarem todas,
e só os seus vultos esguios e distantes,
se desenharem
no fundo azul-triste do céu…
…Quando tudo passar,
tudo!...até eu…
nada mais ficará contigo
senão tu mesmo!...
senão a presença real das Horas Belas,
(terrivelmente belas por vezes…)
que viveste,
comigo,
ou sem mim,
mas que VIVESTE mesmo assim…


Só elas ficarão…as Horas Belas…
serenas e eternas…
estrelas
que iluminam o céu de um dia,
e ficaram sempre “estrelas”…
de pureza nunca maculada…
de luz jamais perdida…
alimentada
pelo fogo, daqueles que verdadeiramente
te amaram na Vida!

Alda Lara
(Agosto-1949)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Romance


Menina dos olhos belos
dos verdes olhos tão belos,
menina dos olhos tristes...
Sentada nessa varanda
onde não passa ninguém
porque esperas soluçando
todo o dia quem não vem?...

Menina dos belos olhos.
Mãos cruzadas.Olhar vago.
Nem o mais ligeiro afago
o vento aqui te deixou...

Posta então nessa varanda,
porque esperas noite e dia,
tão serena e tão sombria
quem por aqui já passou?...

Se tu soubesses menina!...
Enquanto bordas sonhando
em tua toalha fina,
bem perto desta varanda,
quantas varandas quebraram!
quantas meninas deixaram
suas tão belas varandas,
e nunca mais se tornaram...
Quantas! Quantas!

E tu, sentada bordando,...
E tu, sozinha esperando,
alta noite, longo dia,
por quem te esqueceu, passando...
E tu, sentada sonhando...
Hão-de apagar-se as estrelas
Há-de enrugar-se o arvoredo
E tu, sentada sonhando
em silêncio o teu segredo...

Menina!Parte!Olha o tempo!
Pega na tua, esta mão...
Irás pela madrugada
em teu cavalo alazão!
Irás de cabelo solto
e larga saia rodada,
irás de coração livre,
entoando uma canção!...

Irás!E contigo, certo,
só tue destino liberto
Só tu, sozinha, à procura
doutra estrela, noutro céu,
em busca de quanta vida
esta morte em ti nasceu!...


Alda Lara
(1949-1950)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Regresso

"Foto do Sanzalangola"


Quando eu voltar,
que se alongue, sobre o mar,
o meu canto ao Creador!

Porque me deu, vida e amor,
para voltar...
Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!... minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o húmus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua passagem,
que o sol,
a derdejar calor,
transforma num inferno de côr...

....................................

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:

Voltei!...

Alda Lara, 1948

sábado, 19 de janeiro de 2008

Testamento


À prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos,lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...

E os livros,rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler...

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme...
deixo-os a ti meu Amor...

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...


Alda Lara, Lisboa, 1950

do Livro primeiro de "Poemas"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Rumo


É tempo companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
da Terra!...

Nela,
o mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro,
e eu sou branca,
a mesma terra nos gerou!

Vamos companheiro!
É tempo...
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e em prazer dos teus prazeres
irmão:
que as minhas mãos brancas
se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o seu suor,
quando rasgamos os trilhos
de um mundo melhor.

Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...

E é tempo companheiro!
Caminhemos...


Alda Lara, 1951