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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O medo leva ao perigo



O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo.
Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou.
O medo me leva ao perigo.
E tudo o que eu amo é arriscado.

Clarisse Lispector

terça-feira, 12 de outubro de 2010

era uma mulher com o seu amante

 
 
Às vezes sentava-se na rede, balançando-me com o livro aberto no colo,
sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.  
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

Clarice Lispector

sábado, 25 de setembro de 2010

Perfeição



O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fracção de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exactidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exactidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector

sábado, 4 de setembro de 2010

O segredo dos meus olhos


O amor é vermelho. O ciúme é verde.
Meus olhos são verdes.
Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros.
Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.

Clarice Lispector

sexta-feira, 4 de junho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

e ao toque...


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Clarice Lispector

segunda-feira, 24 de maio de 2010

só por ter tido carinho...



Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:
pensava que, somando as compreensões, eu amava.
Não sabia que, somando as incompreensões
é que se ama verdadeiramente.
Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

Clarice Lispector

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dá-me a tua mão


Dá-me a tua mão:
Agora vou contar-te como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha subreptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

...apesar de...


... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.
Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.

Clarice Lispector

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sonhe com o que você quiser



Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades
para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E
esperança suficiente para fazê-la feliz."

Clarice Lispector

domingo, 3 de janeiro de 2010

..estou procurando

Tela de Leonid Afremov

"...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda."

Clarice Lispector

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Nunca se sabe...


Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

sábado, 31 de outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Nunca se sabe...

Tela de Gabriel Picard



Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Clarice Lispector


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Minha alma tem...


Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe, a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.


Clarice Lispector

domingo, 26 de abril de 2009

Quero pintar uma rosa


Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto
que para ela só resta alegria de se ter dado.

Seu perfume é mistério doido.
Quando profundamente aspirada
toca no fundo íntimo do coração e deixa
o interior do corpo inteiro perfumado.

O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo.
As pétalas tem gosto bom na boca - é só experimentar.

Mas a rosa não é it.
É ela.

Clarice Lispector

sexta-feira, 13 de março de 2009

Liberdade

Tela de Jim Warren

Liberdade
Essa palavra que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique,
mas ninguém que não entenda.

Clarice Lispector

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Coração ao rubro


Rifa-se um coração
Que nunca aprende

Que não endurece
E mantém sempre viva
A esperança de ser feliz
Sendo simples e natural.

Um coração insensato
Que comanda o racional,
Sendo louco o suficiente
Para se apaixonar.

Rifa-se um coração
Que insiste em cometer
Sempre os mesmos erros.


Clarice Lispector