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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Posso dar-te muito mais




O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.


Lya Luft


domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu...sou assim.


Tela de Youji Takeshige




Apesar de todos os medos, escolho um dos ousadia.Apesar ferros, construo a dura liberdade.
Prefiro a loucura à realidade, e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.
... Eu, sou assim.
Pelo menos assim quero fazer: a que explode o ponto e arqueia a linha, e traça o contorno que ela mesma há de romper.
A máscara do Arlequim não serve apenas para o Proteger quando espreita a vida, mas concede-lhe o espaço de um Reinventar.
Desculpem, mas preciso lhes dizer:
Eu quero o delírio.



Lya Luft

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Revelação



Supérfluas as palavras,
dispensada a aparência, fiquei eu,
sem prumo,
como antes da primeira dúvida
e do último desencanto.


Lya Luft

domingo, 29 de março de 2009

Canção com parêntesis


Meu coração que voava
Ficou surpreso
A boca se fechou, a música
Descaiu num tom menor
Meu corpo que retornava
Ao que nunca tinha sido
(senão em nostalgia)
retoma o que sempre fingiu ser.

Ficámos á espera, minha vida e eu
(sem amargura mas desconcertadas)
de que apagues os parêntesis
e voltes, e te permitas
as ternuras, o encanto, as surpresas
que iluminava( como os meus)
teus próprios dias


Lya Luft

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Auto-retrato


Alguém diz que sou bondosa:está tão enganado que dá pena.
Alguém diz que sou severa,e acho graça.
Não sou áspera nem amena:estou na vida como o jardineiro
se entrega em cada rosa:corte, sangue, dor e aroma
para que a beleza fique na memória
quando a flor passa.

(Amar é lidar com os espinhos de quem ama por inteiro:com força, não com fraqueza.)


Lya Luft
(poetisa brasileira)