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quarta-feira, 18 de março de 2009

Nova canção da vida


O meu ideal, a minha felicidade,
é ter uma cubata, mesmo ali
dentro do mato, longe da cidade,
mas sempre, meu amor, ao pé de ti.

O culto da cidade em desprezo do mato!
Eu não conheço nenhum mal maior.
O meu ideal é este, e nele me retrato:
– o mato, uma cabana, o nosso amor...

Ter um jardim cercando o nosso lar
(é lar uma cubata se Deus quer
que nela, sempre, o homem e a mulher,
em sonho e obra, sejam par e par);

ter lavras de feijão e de batatas,
de milho, de ginguba e de mandioca,
para nós dois e para quanta boca
de fome houvesse ali pelas libatas;

gozar o bucolismo das paisagens
(aqui, uma palmeira; além, uma mulemba...);
e admirar a loucura infantil dos selvagens
no prazer da rebita e da massemba;

ter mesmo ao pé da casa uma mangueira,
que desse sombra e fruto ao cansado viajor;
de dia, trabalhar em lida meeira;
à noite, adormecer na benção do Senhor...

– Vamos viver assim a vida inteira,
vamos viver assim, ó meu amor!



Geraldo Bessa Victor

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Dia de chuva no mato


Chove
E a trovoada
é um batuque incessante,
uma estranha batucada.

Os raios são setas de fogo
que misteriosamente, em tom de guerra,
espíritos do mal lançam da Altura
para incendiar a Terra.

O vento
Ora violento, ora brando,
o vento é o cazumbi dos cazumbis
- o deus do mar, do rio e da floresta
- que vai cantando e dançando, em tragicómica festa,
o seu coro de mil vozes,
os seus bailados febris.

As nuvens negras são virgens tontas,
quais almas do outro mundo, errando como sonâmbulas
pelo céu negro e profundo...

E a chuva, constante e forte,
é o pranto (parece eterno) dos deuses negros que a Morte
sacrificou no Inferno.

Geraldo Bessa Victor
(Poeta angolano)