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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Terra molhada



Não vou negar a saudade
De tantos cheiros impregnada;
Mas daqueles que me lembro
Há um, deixa-me assim arrasada...

Terra molhada, cheirosa
Que não mais vou esquecer...
Dos quentes verões chuvosos
Não se cansa de beber...

Por momentos, por instantes,
Quem me dera tal sentir,
Dar de beber à minha alma
Sequiosa de partir...

Ana Bela

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Com alma



Como um pão aberto
assim te ofereço
este rio em prata
sorrindo

para que te embebedes
da certeza de que
os caminhos se fazem,

como este barco
perseguido por pássaros
enfeitiçados
de todas as latitudes

salpicam da espuma
as luzes da cidade
mostrando-me como
se rompem os contornos.

Ana de Santana
(poetisa angolana)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Desejo

Tela de Margarita Sikorskaia


Aterra-me nos lábios
Com teus beijos
E deixa-me voar nas asas do sonho
Iludido ainda por viver…

Navega-me
O corpo impuro
Do meu casco imaturando,
Com as ondas crespas e revoltas
Do teu negro e revolto cabelo.

Viaja por mim
Teu corpo em carícias
De voltas ao Mundo:
Sejam abraços tão fundos
Sem nunca lhes medir o fim!

António Cardoso



sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A tua voz Angola


Nos tribos
E assobios
Dos pássaros bravios
Ouço a tua voz Angola.

Dos fios
Esguios
Em arrepios
De mulembas sólidas
Escorre a tua voz Angola.

Nas ondas calemas
Barcos e velas
Dongos traineiras
Âncoras e cordas
Freme a tua voz Angola.

Em rios torrentes
Regatos marulhentos
Lagoas dormentes
Onde morrem poentes
Brilha a tua voz Angola.

No andar da palanca
No chifre do olongo
No mosqueado da onça
No enrolar da serpente
Inscreve-se a tua voz Angola.

No acordar dos quimbos
Nos cúmulos e nimbos
Nos vapores tímidos
Em manhãs de cacimbo
Flutua a tua voz Angola.

Na pedra da encosta
No cristal de rocha
Na montanha inóspita
No miolo e na crosta
Talha-se a tua voz Angola.

Do chiar dos guindastes
Do estalar dos braços
Do esforço e do cansaço
Emerge a tua voz Angola.

No ronco da barragem
No camião da estrada
No comboio malandro
Nos gados transumantes
Ecoa a tua voz Angola.

Dos bongos e cuicas
Concertinas apitos
Que animam rebitas
Farras das antigas
Salta a tua voz Angola.

A flor da buganvilia
A rosa e o lírio
Cachos de gladíolos
O gengibre e a cola
Perfumam a tua voz Angola.

Ouve-se e sente-se e brilha
A tua voz Angola

Inscreve-se nos seres talha-se nas rochas
A tua voz Angola

Vai com o vento goteja com o suor
A tua voz Angola

Por toda a parte por toda a parte
A tua voz Angola

Que voz é essa tão forte e omnipresente
Angola?

Que voz é essa omnipresente e permanente
Angola?

É a voz dos vivos e dos mortos
De Angola
É a voz das esperanças e malogros
De Angola
é a voz das derrotas e vitórias
De Angola
É a voz do passado do presente e do porvir
De Angola
É a voz do resistir
De Angola
É a voz dum guerrilheiro
De Angola
É a voz dum pioneiro
De Angola.

Antero Abreu

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

amor em carta aberta


Meu amor venho em carta aberta, dizer o seguinte:
de ti vi nascer a paz!

Crescer árvores nos baldios das minhas solidões onde pássaros
chilreiam e anunciam o sol e a chuva ao deserto.

Tua chegada trouxe o projecto de uma casa com dois cómodos
apinhados de livros, um pomar de rica sombra e nossos netos de
todas as cores, a treparem pelas nossas bengalas e cadeiras de verga
balanceando com seus choros e fraldas molhadas;

De ti recebi o sémen do amor, verdadeiro de mais, para se esbanjar
pela cercania da mágoa. Hoje enquanto o céu caía sobre mim, da
chuva das tuas lágrimas compreendi a imperfeição da minha alma!
E o que me levou a desentender o percurso de nós. Vejo que o
abismo pode estar onde menos se espera, até, imagina, na esquina
desta entrega que nos parecia ser capaz de superar todas as crateras
e enfrentar as trevas... quanta crueldade!

Enfim, este adiamento ao nosso reencontro e aos nossos corações,
talvez traga maior maturidade e aceitação da vida com a
serenidade das coisas simples:

Somente!

Amélia Dalomba
(poetisa angolana)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

À porta da minha casa


Num canto do fim do mundo
há uma flor
contando histórias!

À porta da minha casa
há uma planta
plantando sonhos!


Domingos Florentino
(poeta angolano)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Regresso

"Foto do Sanzalangola"


Quando eu voltar,
que se alongue, sobre o mar,
o meu canto ao Creador!

Porque me deu, vida e amor,
para voltar...
Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!... minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o húmus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua passagem,
que o sol,
a derdejar calor,
transforma num inferno de côr...

....................................

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:

Voltei!...

Alda Lara, 1948

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Os frutos da nossa infância



Não deixem que a gajaja
e o maboque
sejam simplesmente na memória do futuro
singelas recordações
do nosso antigamente.


Não permitem que a saborosissima noxa
deixe unicamente na boca da nossa infância
o gosto e o perfume do guloso apetite.


Que o paladar agridoce do tambarino
não de esfume no tempo de só lembrança
e a pitanga
não nos recorde apenas além do sumo
o rubro dos lábios sequiosos
do beijo apaixonado.


Não façam que o mirangolo,
a manga, o sape-sape
se consumam como fogo ardente
dos desejos,
deixando-nos a nostalgia
dum sabor embriagante.


E a goiaba, a múkua,
o trabalho ou o coroado ananás
continuem para sempre a reinar pelo tempo
de todas as infâncias
como frutos abertos ao paladar
dos nossos desejos a todo o momento.


Que toda esta riqueza suculenta
da nossa amada terra
a nossa mãe Angola
continue,
através de todos os cacimbos.
no incontravel tempo,
enchendo nossas kindas
desse gostoso e incomparável
maná


(Eduardo Brazão- Filho)

sábado, 19 de janeiro de 2008

Testamento


À prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos,lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...

E os livros,rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler...

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme...
deixo-os a ti meu Amor...

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...


Alda Lara, Lisboa, 1950

do Livro primeiro de "Poemas"

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Fruta


Quitanda de fruta verde,
dá-me um gomo de laranja
para matar a sede.
Ou, então, será melhor
dar-me um veneno qualquer
porque eu ando perturbado
e o meu sonho anda queimado
por uns olhos de mulher!

- Minha senhora, laranja,
limão, fresquinho, caju,
ananás ou abacate!...

E a quintandeira passou,
saudável, viva, graciosa,
com uma flor desfolhada
no seu sorriso escarlate.

E no ar um som de musica ficou
e um perfume de fruta
que não matou minha sede

Ó agri-doce quitanda
da fruta verde!...

Tomás Vieira da Cruz

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

"Simplesmente delicioso"



Quando te disse
que era da terra selvagem
do vento azul
e das praias morenas
do arco-íris das mil cores...
do sol com fruta madura
e das madrugadas serenas....

das cubatas e musseques
das palmeiras com dendém
das picadas com poeira
da mandioca e fuba também...

das mangas e fruta pinha
do vermelho do café
dos maboques e tamarindos
dos cocos, do ai u'é...

das praças no chão estendidas
com missangas de mil cores
os panos do Congo e os kimonos
os aromas, os odores...

dos chinelos no chão quente
do andar descontraído
da cerveja ao fim de tarde
com o sol adormecido...

dos merenges e do batuque
dos muquixes e dos mupungos
dos imbondeiros e das gajajas
da macanha e dos maiungos.

da cana doce e do mamão
da papaia e do cajú....

tu sorriste e sussurraste
"Sou da mesma terra que tu!"

Ana Paula Lavado
in " Um beijo sem nome" do livro "Vozes ao Vento"


NB:Ana Paula Lavado nasceu em Angola, em
Cambambe, a 19 de Julho de 1960.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Oferta



Sou a quitandeira mais doce
que todos os doces de côco,
minha boca é tão docinha
como a fruta da minha quinda.

Tenho os seios para dar
duas laranjas do Loje,
tenho nos olhos pitangas
tão boas de namorar

Tenho o Sol na barriga
e doçura da manga nos braços,
quem quer a minha vida
pra adoçar os seus cansaços?

António Cardoso

Angolano


Ser angolano é meu fado, é meu castigo

Branco eu sou e pois já não consigo

mudar jamais de cor ou condição...

Mas, será que tem cor o coração?


Ser africano não é questão de cor

é sentimento, vocação talvez amor.

Não é questão nem mesmo de bandeiras

de língua, de costumes ou maneiras...


A questão é de dentro, é sentimento

e nas parecenças de outras terras

longe das disputas e das guerras

encontro na distância esquecimento!


Neves e Sousa-Poeta e Pintor