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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cheiro a terra


Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Reza da manhã

Tela de Joan B. Bofill


Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Antínoo


Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua divina do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 27 de junho de 2009

Retrato


"A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto."

terça-feira, 9 de junho de 2009

Às vezes


Às vezes julgo ver nos meus olhos
a promessa de outros seres
que eu podia ter sido
se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
só tem vindo o terror e a mágoa
de me sentir sem forma, vaga e incerta
como a água


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Fundo do mar


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.



Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 12 de maio de 2009

Terror de te amar



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Em todos os jardins


Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 2 de maio de 2009

Como uma flor vermelha


À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O rapaz de bronze

Não tenhas medo. Eu tomo conta de ti – disse ao lado dela uma voz.
Florinda voltou-se e viu um rapaz alto, lindo e verde.
- Ah! – disse ela. – És o Rapaz de Bronze. Eu pensava que tu não sabias falar, pensava que eras uma estátua.
- De dia – disse o Rapaz – sou uma estátua. Mas de noite sou uma pessoa e sou o Rei deste jardim. …. “ - A noite é fantástica e diferente!
- A noite – disse o Rapaz de Bronze – é o dia das coisas. É o dia das flores, das plantas e das estátuas.De dia somos imóveis e estamos presos. Mas de noite somos livres e dançamos...

Sophia Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sem regresso nem resposta


Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
- Que nada sejam senão teu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 15 de abril de 2009

...da minha alma


Mar, metade da minha alma é feita de maresia.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 12 de abril de 2009

Vento dos espaços


Há sempre um deus fantástico nas casas
Em que eu vivo, e em volta dos meus passos
Eu sinto os grandes anjos cujas asas
Contêm todo o vento dos espaços.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Casa frente ao mar


Casa que ficava frente ao Mar...
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 5 de abril de 2009

Primavera


As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra da folhagem nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
- Sangue feroz do tempo possuído

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 30 de março de 2009

Sacode as nuvens


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner

terça-feira, 24 de março de 2009

...flor e perfume


Naquele tempo
Sob o caramanchão de glicínia lilás
As abelhas e eu
tontas de perfume
lá no alto as abelhas
doiradas e pequenas
não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
e cá em baixo eu
sentada no banco de azulejos
entre a penumbra e a luz
flor e perfume
Tão ávida como as abelhas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 23 de março de 2009

...da Sophia


Não creias, Lídia que nenhum estio
por nós perdido possa regressar
oferecendo a flor
que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
e no redondo círculo da noite.
não existe piedade
para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
longo indelével rasto
que o não vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
vai sempre mais à frente
do que o teu próprio passo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 21 de março de 2009

Dia da poesia


Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 20 de março de 2009

Chegou a Primavera


Cheiro a terra, as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen