sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Sob as acácias floridas

Tela de Neves e Sousa

Com Novembro a chiar nestas cigarras
as acácias sangrando suas flores
e um sol afirmativo num céu alto

Espero a tua carta e a minha vida

Uma pausa do tempo em minhas mãos
preenchida
pela contagem das horas
nas cigarras e pétalas caídas.

A rua corre larga e sossegada
É a hora de tu vires!
Tu vens (eu sei) na moldura vesperal
com esta luz do passado nas paredes
e este céu de altocúmulos de Dezembro.

Com os estames d'acácia
jogo a vida nas sortes infantis
«Antera cai? Não cai? Ela virá? Não vem?»
E a cada sorte recuso a evidência
«Ela virá? Não vem?»
É a hora de chegares!

Os aros dos meus óculos te emolduram
ó Vénus de cabelos desfrizados!
Enquanto as minhas mãos, cegas, procuram
o cofre dos teus seis apertados.

Construímos assim a primavera
- a negada primavera dos amores:
Pega uma flor d'acácia para a pores
no meu cabelo indómito de fera.

Repara e vê a doce realidade:
os nossos jogos simples e ingénuos!
Esta soalheira vespertina hoje é-nos
bela imagem da nossa felicidade.

Cigarreio sem sol neste Dezembro.
E um céu da cor da angústia que me dá
a tua ausência em carne e em pensamento.

Magoa-me o teu rosto que não lembro
e o tau vestido branco táfetá
que voava batido pelo vento.

Se esta vida tão clara e simples fosse
como a imagem fixada desse instante
nenhum mal me faria esta chuva precoce.

Chuva, mãe dos poetas, minha amante,
lava às acácias o sanguíneo canto,
cala a voz das cigarras e o meu pranto!

Mário António
(Poeta angolano)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Luanda



LUANDA

A cor e a luz de Luanda trago no peito
Lá fui mulher aprendi com a sua gente.
A sua forma de amar.

Bruma


Perdidos meus olhos…
incerto meu passo…
Vago o gesto,no espaço!...

Mesmo assim
o meu andar se não detém.

Além
continuam a esperar por mim,
os mundos que uma vez encontrados
ninguém mais descobriu…

Quem me viu?...

E eu vou só…
perdidos meus olhos,
incerto meu passo,
vago o gesto no espaço…
mas VOU-ME!...

Isso me basta!...


Alda Lara

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Antonin Dvorak



Pergunto-te onde se acha a minha vida


Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto?
Em quem penso, iludida

por esperanças hereditárias?
E de cada pergunta minha
vai nascendo a sombra imensa

que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa não respondida.

Cecília Meireles

Eterna sentinela


Abandonado e só,
o Imbomdeiro,
figura milenária do sertão,
tem a dolorosa expressão
de quem foi condenado
por toda a vida
a sofrer na costa de África
o seu destino maldito.

Não conhece os milagres do amor,
e junto a si jamais teve o carinho
ou a ternura saudável
da mais humilde flor.

Imbondeiro desgraçado,
filósofo triste e pensativo,
filósofo da paisagem,
mártir e santo que alguém tivesse encontrado
no inferno de Dante
e conduzisse a este sol abrasador:

Tu és a estátua gigante
da minha dor!

Tomaz Vieira da Cruz
(poeta angolano)

Conhecimento

domingo, 16 de novembro de 2008

Resíduos


Alegrias,tristezas,questões,
Tudo tivemos.
Amor,felicidade,desilusões,
Também conhecemos.

Agora,tudo findou.

Sonhos,castelos,
Estrelas,luar,
Horizontes belos...

Nada mudou.

Só resta o penar,
O triste sofrer...
Pelas ruas andar
Sozinho a viver.

Uma núvem despeja
Gotículas de água,
Num leve rumor.
Meu ser só deseja
Que esta minha mágoa
Fique sempre amor.

M.A.S.

Sonho


Oh! Volúpia de sonhar…
Volúpia de partir
para onde só há névoa e fumo,
sem bússolas a nortear!...
Volúpia de dormir indefinidamente
de levantar castelos inacessíveis
com escadas tecidas de cabelos!...
de moldar com raiva, e com prazer,
entre as mãos frágeis,
aquilo que não poderá ser!...
Oh! Volúpia de fechar os olhos,
e morrer um pouco…
Ainda se a vida passasse,
e não continuasse…
Sem se dar conta que eu sonho!...
Mas o meu sonho é a morte…
E a vida não pára mais…


Alda Lara

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Procura...

Use sua inteligência para procurar as coisas onde elas estão ,
mesmo se estiver escuro.
- Olhe para dentro

Stay


Para ti


Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória da nossa
Mãe África dignificada.

Alda do Espírito Santo

Emoções


... Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is",
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam o brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, corações aos tropeços, sentimentos...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Poema perdido


Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão.

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.

Sophia de Mello Breyner Andresen